Uma Devota do Samba PDF Imprimir Envie este artigo para um amigo

Imperiana de fé, Luiza Dionizio nasceu no dia de Nossa Senhora da Conceição, no subúrbio da Vila da Penha, em um dos seus melhores dias.  Bom, pelo menos pra quem já ouviu Luiza cantar. Devota da santa padroeira da Portela, se sagrou bicampeã  no Festival de Sambas de Terreiro da escola de Oswaldo Cruz. Em 2005 interpretando uma composição de Ratinho e no ano seguinte de Wanderley Monteiro e Luiz Carlos Máximo.

Devoção que a carreira depõe em bares, bailes, noites adentro, noites afora, projetos, estradas, sonhos e ilusões. Noites que temperaram o bonito canto, lhe propiciaram experiência e moldaram com mãos de escultor, o dom que nasceu com ela.

Sua primeira gravação foi no CD independente "Conexão Carioca", em 1999. Uma coletânea, do baião ao blues, com compositores e intérpretes sem oportunidades nas grandes gravadoras. A faixa " Da cor do seu batom" de Milton Sivans, na voz de Luiza, teve destaque e rendeu elogiosos comentários na Revista Música Brasileira.

 

E o samba mandou lhe chamar ...

 

A freqüência nas rodas de samba da década de 80  -"Pagode da Tia Doca" em Oswaldo Cruz e "Pagode do Arlindo" em Cascadura - fez com que conhecesse os tradicionais sambas das Velhas-Guardas, composições de Candeia, Cartola, Nelson Cavaquinho e novos sambas de compositores ainda desconhecidos, como Arlindinho, Zeca Pagodinho, Mauro Diniz e outros, que viriam a ser sucesso. Nas antigas rodas de samba suburbanas ninguém chegava cantando. Pra pegar a senha havia um critério de hierarquia e respeito à ordem de chegada. Mas Luiza somente queria curtir um bom samba. E de um pagode que findava partia para outro que estava iniciando. Assim como a "Rosalina", personagem do samba de Luizinho To Blow e Serginho Meriti.

Mas ninguém canta samba, verdadeiramente, só porque prefere. Convidada pela cantora Dorina, do bairro vizinho Irajá, integrou o elenco do show "Ginga", juntamente com João de Aquino, Paulão Sete Cordas e Nadinho da Ilha, nos teatros Rival e Villa-Lobos. Pronto. E o samba em  dia de Mário Quintana encontrou a moedinha perdida Luiza Dionizio.

O canto instintivo e de rara sensibilidade fez com que ministrasse aulas numa oficina musical no Conservatório Brasileiro de Música a convite do instrumentista Carlos Malta. Shows em homenagem a Cartola no teatro do BNDES ao lado de Elton Medeiros e Henrique Cazes, tributo a Clementina de Jesus com Moyseis Marques no Centro de Referência da Música Carioca, no teatro Rival com Dona Ivone Lara e Nilze Carvalho em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, apresentações com Luiz Carlos da Vila, Fátima Guedes, Moacyr Luz, e gravações nos CDs Renascença Samba Clube (Conceição da Praia), de Mário Lago (Devolve), de Délcio Carvalho (Notícias de Jornais), provaram que Luiza Dionizio é hoje uma das maiores intérpretes do samba.

Elegante e carismática, faz com que suas apresentações habitem por muito tempo a memória de quem a assiste. No palco, é uma cantora que coloca sua alma em cada palavra do samba que canta.

Já no seu primeiro cd, Devoção, Luiza conquistou definitivamente o público e a crítica. Prova disto, foram as indicações de melhor cantora de samba e de melhor cantora no voto popular, no XXI Prêmio da música brasileira em 2010. No dia da premiação, ao cantar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, emocionou o musicólogo e crítico de música Zuza Homem de Mello, que fez questão de procurá-la para dizer “quando você cantou eu pensei, ali está uma cantora de verdade”.

Por sua história, talento e devoção à música, Luiza Dionizio é um presente para ouvidos que saibam ouvir.